sexta-feira, 5 de março de 2021

Por que os agricultores usam agrotóxicos?

Nossa época gosta de julgar, de apontar o dedo e classificar de forma taxativa: isso é bom, aquilo é mau. Como se não houvesse meios-termos. Nem preciso dizer o quanto essa atitude contribuiu para o estado atual das disputas ideológicas - não há possibilidade de diálogo porque cada "lado" considera o outro a representação do mau. A isso se chama maniqueísmo. Julgamentos maniqueístas têm sido feitos sem escrúpulo em relação ao que se convencionou denominar de "agricultores convencionais". 

Esses agricultores são acusados de "envenenar a mesa do brasileiro", de colocarem o lucro acima de qualquer coisa, de agirem inescrupulosamente contra a saúde e o meio-ambiente. O que há de verdade nisso? Pergunto-me se os acusadores já pararam seriamente para refletir sobre o que leva um agricultor a usar agrotóxicos em sua lavoura. Gostaria de analisar cuidadosamente algumas dessas acusações e tentar elevar um pouco o diálogo, fugir do maniqueísmo dos bordões ideológicos que matam a reflexão no berço, impedem o pensar sem preconceitos e pré-concepções. Focarei a produção de hortaliças, grupo de culturas com que trabalho há mais de uma década e um dos alvos preferidos dos juízes da moral e dos bons costumes.

Antes de tudo, gostaria de deixar claro sobre o que estou falando quando me refiro a agrotóxicos, usando a definição do livro Agricultura: Fatos e Mitos. Para os autores do livro, agrotóxicos são "produtos químicos utilizados no controle de pragas agrícolas". Pois bem, isso talvez ainda não seja suficiente. Afinal, o que são pragas agrícolas? De maneira geral, são organismos que, de alguma forma, impactam negativamente a produtividade ou a qualidade dos cultivos. Refere-se esse termo quase invariavelmente a plantas espontâneas, artrópodes (insetos, ácaros) e microrganismos que, para sobreviver, competem com as plantas cultivadas por recursos ou usam estas plantas como alimento. 

Ora, o agricultor é um trabalhador que sobrevive às custas do que produz - se é um produtor de tomates, ele depende da produção e da venda de tomates para seu sustento. "Jogou" seu dinheiro no solo na forma de sementes, adubos, irrigação, tratos culturais e espera um retorno daí a alguns meses. O plantio é seu investimento e a colheita o retorno. Qualquer investidor ao ver seu investimento ameaçado tomará as medidas necessárias para protegê-lo. Ao detectar uma lagarta se alimentando dos frutos do tomateiro, é natural que o agricultor veja nisso uma ameaça a seu sustento e tome as medidas necessárias para salvaguardá-lo - ou não é? Então deixemos esse pensamento de que o agricultor é um agente do mal cuja intenção é "envenenar a mesa do brasileiro". Essa frase é manipulação descarada.

Os agrotóxicos não são produzidos pelos agricultores nem distribuídos gratuitamente pelas empresas que os produzem. São produtos caros, representam uma porcentagem considerável do custo de produção para o agricultor. O produtor rural não "gosta" de aplicar agrotóxicos, ele se sente obrigado a isso ao detectar uma ameaça ao seu investimento. Vejam bem, não estou dizendo que a aplicação de agrotóxicos seja a única ação possível, mas para muitos produtores, é a única que conhecem. Ao saber-se doente, uma pessoa normal não toma remédio porque "gosta", mas porque precisa. A afirmação de que o produtor usa agrotóxicos porque põe o lucro acima de qualquer outra consideração seria análogo a se dizer que um dono de casa põe sua propriedade acima da liberdade ao chamar a polícia quando vê um ladrão arrombando sua porta.

Não sou um entusiasta dos agrotóxicos, preferiria que não fossem necessários. O uso excessivo ou inadequado existe. Minha opinião é de que o mal-uso se deve muito mais ao despreparo e à desinformação. O produtor rural, principalmente o pequeno, carece de assistência técnica de qualidade, principalmente porque em fins da década de 80 do século passado resolveu-se transferir a responsabilidade da assistência técnica e extensão rural públicas da União para os Estados. A maior parte do impacto ambiental negativo da agricultura se deve a isso, mas nunca vi Bela Gil clamando por uma extensão rural de qualidade para os produtores de hortaliças.  

Apesar de o Brasil ser considerado uma superpotência agrícola e de a agricultura ter tido nos últimos anos uma importância tremenda em nossa balança comercial, as discussões públicas sobre a agricultura no país são quase invariavelmente superficiais e preconceituosas. A agricultura, por aqui, quando se “discute” é de forma em geral maniqueísta, de acordo com a preferência ideológica de quem discute, e geralmente quem tem audiência suficiente para ser ouvido tem agenda ideológica mais do que enviesada. Ou a agricultura é vilã ou é a salvadora da pátria. Discussões de pequena profundidade e destinada aos horários de menor audiência dos meios de comunicação. Damos importância a outras coisas.

Há um temeroso divórcio entre a população urbana e a prática agrícola, como se uma não influenciasse a outra. Não discutimos a sério a questão do uso excessivo ou inadequado de agrotóxicos, por exemplo, e suas causas. Nunca questionamos a pressão exercida pelas exigências do mercado urbano sobre as decisões tomadas pelos agricultores. Alguém está se perguntando o quanto de agrotóxicos é necessário para se conseguir a fruta ou hortaliça esteticamente perfeita que se procura nas prateleiras de supermercados?

quinta-feira, 4 de março de 2021

Fertilizante não é agrotóxico


Em 2015 estive na Coreia do Sul realizando atividades de um projeto de parceria que ao tempo eu coordenava. Visitei diversas estufas de produção de hortaliças e lembro-me que pedi ao pesquisador que me acompanhava para visitar uma estufa de produção orgânica. Fomos a uma enorme estufa de produção de pimentões nos arredores de Busan. Minha primeira surpresa foi que a produção era hidropônica. No Brasil não há como certificar uma produção hidropônica como orgânica, a legislação não permite. A surpresa maior veio quando verifiquei que toda a nutrição das plantas era feita com adubos químicos.

A resposta do colega coreano quando lhe perguntei como classificavam aquela produção como orgânica se usavam adubos químicos foi, para mim, uma aula de pragmatismo: "a forma com que a planta absorve o nutriente é a mesma, independente se o adubo é orgânico ou químico, isso não é o importante. O importante é que não usamos agrotóxicos para combater pragas e doenças, só controle biológico." Claro. Esse tipo de produção, no Brasil, seria chamada de Produção Integrada, um sistema de produção que agrupa o que se chama de Boas Práticas Agrícolas. Esse, no entanto, não é o foco dessa reflexão. O que quero sublinhar é o fato, claro para o colega pesquisador coreano, é que fertilizantes, adubos, químicos ou não, não são agrotóxicos.

Todas as espécies vegetais cultivadas precisam pelo menos de 16 nutrientes. Três destes nutrientes, hidrogênio (H), oxigênio (O) e carbono (C) são fornecidos pela água ou pelo ar e são classificados como elementos não minerais essenciais ou elementos estruturais. Os outros treze nutrientes, conhecidos como nutrientes minerais, devem ser fornecidos através de adubos ou fertilizantes e estar na forma de íons (cátions ou ânions) no meio onde crescem as raízes para que as plantas possam absorvê-los, juntamente com a água. Os nutrientes minerais são divididos em macronutrientes e micronutrientes.


Macronutrientes são elementos químicos cuja concentração na matéria seca vegetal é maior que 0,1%. São considerados macronutrientes os elementos nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio (Mg) e enxofre (S). Os micronutrientes são os elementos nutrientes cuja concentração na matéria seca da planta é menor que 0,1%. Atualmente reconhecem-se 7 micronutrientes: ferro (Fe), manganês (Mn), zinco (Zn), cobre (Cu), boro (B), molibdênio (Mo) e cloro (Cl). Para alguns fisiologistas o elemento níquel (Ni) é essencial e classificado como micronutriente. Os micronutrientes são elementos tão essenciais para as plantas quanto os macronutrientes, só que requeridos em quantidades muito pequenas, daí a denominação micronutriente. 


Além dos elementos químicos considerados como nutrientes essenciais, há alguns elementos conhecidos como benéficos. Estes são elementos não essenciais os quais estimulam o crescimento vegetal. Também são classificados como benéficos os elementos essenciais para um número limitado de espécies. Essa classificação geralmente se refere aos elementos silício (Si), sódio (Na) e cobalto (Co).

Um adubo ou fertilizante é simplesmente o meio de transporte de um nutriente. O adubo leva para a planta o nutriente que ela precisa Os adubos geralmente são sais (compostos formados por um cátion e um ânion) de altas pureza e solubilidade. Um adubo pode conter um ou mais nutrientes e o mesmo nutriente pode estar presente em diferentes adubos. 

O nitrogênio (N), por exemplo, é um nutriente essencial para as plantas. Quando um produtor precisa fornecer o nitrogênio a seu cultivo, utiliza um adubo que contenha o nitrogênio, por exemplo o MAP (monoamônio fosfato ou fosfato monoamônico), cuja fórmula química é NH4H2PO4. É possível ver na fórmula química do MAP que além do nitrogênio, ele contém fósforo (P), o qual também é um nutriente. Isso quer dizer que o adubo MAP contém, ou transporta, os nutrientes nitrogênio e fósforo. 

O termo agrotóxico se refere a "produtos químicos utilizados no controle de pragas agrícolas", segundo a definição do livro Agricultura: Fatos e Mitos. Esses produtos são conhecidos internacionalmente como pesticides, pesticidas ou praguicidas. No Brasil, tem se preferido o uso do termo "defensivo agrícola" ou, mais exato ainda, produto fitossanitário. Pragas agrícolas são organismos cuja presença no sistema de produção podem comprometer a produção ou qualidade do cultivo; geralmente são artrópodes e microrganismos causadores de doenças. Não abordarei neste texto a prática do uso de pesticidas.

Espero que fique clara a diferença entre fertilizantes, usados para fornecer nutrientes essenciais às plantas, e agrotóxicos, usados para o controle de pragas. São papeis completamente diferentes. Uma planta bem adubada, adequadamente nutrida, será mais resistente ao ataque de pragas agrícolas, demandando menor uso de agrotóxicos. O uso inadequado, seja excessivo seja insuficiente, de adubos pode levar a desequilíbrios na planta e no ambiente. Isto vale para adubos orgânicos ou inorgânicos.