segunda-feira, 9 de novembro de 2020

As fazendas verticais são a Utopia das Ciências Agrárias

 


O que faz o homem sobre a Terra? Luta para neutralizar o acaso. Eis a principal necessidade humana: driblar o imprevisível...”     Ferreira Gullar, poeta brasileiro.

A evolução da Agricultura, desde sua invenção no Neolítico, tem sido uma história de luta contra o acaso. A Utopia das Ciências Agrárias poderia ser descrita como o ambiente perfeito para o cultivo, onde todas as variáveis relevantes tivessem valores ideais para a produção vegetal. Poderia resumir a História das Ciências Agrárias como uma busca por essa Utopia. As modificações do ambiente físico onde se realizará o cultivo são modificações cujo objetivo é criar as melhores condições para o crescimento e o desenvolvimento vegetal para que se possa obter o máximo de produção. Esse conceito é chave: a agricultura pretende otimizar o crescimento e o desenvolvimento vegetal na medida em que essa otimização se traduza em maximização da produção de interesse econômico.

Normalmente, o ambiente se desvia desse ótimo: o conteúdo de nutrientes do solo é menor do que o necessário para uma colheita satisfatória; as chuvas são irregulares e a quantidade de água insuficiente; a densidade da camada arável é muito alta, a drenagem do subsolo é deficiente; há uma abundância de organismos herbívoros e de microrganismos causadores de doença; as plantas espontâneas crescem mais rápido e são mais eficientes na aquisição de água e nutrientes do que as espécies cultivadas; venta muito; o calor é excessivo; as sementes disponíveis são escassas e de baixa qualidade; o frio noturno é intenso...Enfim, há muitas "variantes trágicas" com o potencial de comprometer a produção desejada.

Estima-se que, mesmo em países de agricultura desenvolvida, a produção agrícola está limitada a 25% de seu potencial em razão de condições ambientais estressantes para as espécies cultivadas. As produtividades médias da maior parte das principais espécies de hortaliças cultivadas poderia ser 50% maior caso as mesmas não sofressem com condições ambientais estressantes. Isso não é pouco.  Só esse fato já explica os impressionantes ganhos de produtividade das hortaliças cultivadas em estufas e principalmente em ambiente controlado. Esse mesmo fato demonstra bem o peso que a dependência nas condições climáticas tem na produção de alimentos. Cada metro quadrado de terra poderia produzir 50% a mais de alimentos se não fosse o acaso, a imprevisibilidade. 

Imaginemos quanto esforço as Ciências Agrárias dedicaram ao desenvolvimento de variedades cultivadas menos sensíveis a fatores ambientais desfavoráveis: variedades resistentes ao frio, ao calor, à seca, ao alagamento, à acidez do solo, à salinidade... Apesar de a agricultura ser uma luta contra o acaso, do desenvolvimento de técnicas e práticas de manejo do ecossistema agrícola, esse manejo é inevitavelmente incompleto. Em razão disso, todo esse esforço gera resultados mais ou menos efêmeros, mais ou menos satisfatórios. Há agora condições tecnológicas de se fazer o inverso - criar condições ambientais ótimas para que as espécies de plantas cultivadas possam expressar todo seu potencial produtivo.

Na produção de hortaliças, a adoção das práticas de cultivo protegido foi um passo à frente na tendência de controlar as variáveis ambientais e se proteger do acaso visando a otimização e maximização da produção agrícola, mas não tem sido uma solução de fácil manejo em regiões tropicais, principalmente no que diz respeito ao controle da temperatura. O cultivo em ambiente controlado representa uma declaração de independência. É o fim da dependência do clima, do tempo, das pragas, das doenças, do solo infértil. É uma visão realizável de um ideal utópico. Na verdade, já é, em muitos lugares, uma visão realizada. Ainda assim, estamos apenas no começo de uma nova revolução agrícola. Passamos pela revolução neolítica, pela revolução industrial, pela revolução verde. Estamos no início da revolução vertical.

Esqueçamos a alta tecnologia, o brilho estranho das lâmpadas LED, os vários andares de cultivo. O que realmente caracteriza uma fazenda vertical que a torna diferente do cultivo em estufa ou do cultivo tradicional em campo aberto? O controle total de todas as variáveis ambientais que definem a produção de uma planta. A eliminação completa da ação do acaso e do imprevisto na produção vegetal. Dentro de uma fazenda vertical não há mais a preocupação com secas, com enchentes, com geadas, com veranicos. A fazenda vertical produzirá a mesma coisa chova ou faça sol. Literalmente, o clima lá fora deixa de importar.