sábado, 18 de setembro de 2021

Por que o Brasil está investindo em fazendas verticais?

 

Apesar da abundância de terras com potencial agrícola no Brasil, a produção de hortaliças depende menos de extensão territorial do que de condições climáticas adequadas para produzir. As regiões tropicais apresentam desafios consideráveis para a produção de hortaliças com qualidade, uma vez que a produtividade física não é o principal determinante. O fato de as hortaliças serem produtos frágeis e facilmente perecíveis é uma das principais razões por que os plantios de hortaliças se localizam próximos aos centros de consumo. Ainda assim, as estimativas de perdas pós-colheita para alguns produtos hortícolas se aproximam dos 50% . 

Os cinturões verdes ao redor dos centros urbanos já prenunciam a importância da aproximação dos centros produtores e da população consumidora, mas esse modelo mesmo talvez já esteja esgotado e claramente ameaçado. O aumento na frequência de eventos climáticos extremos como consequência das mudanças climáticas globais tem impactado negativamente a produção agrícola no Brasil, particularmente a produção de hortaliças e frutas.

Há uma forte pressão da sociedade por tornar o ambiente urbano mais sustentável em resposta aos crescentes desafios impostos pela escassez de recursos, pela pressão populacional e pelas mudanças climáticas. A integração da agricultura no ecossistema urbano pode contribuir com a resiliência e a sustentabilidade das cidades. O conceito de agricultura urbana abrange a produção, o processamento e a comercialização de alimentos, fibras, combustíveis e compostos de interesse farmacêutico de origem vegetal em áreas urbanas e peri-urbanas, geralmente utilizando práticas de produção intensiva, como o cultivo protegido.

Empreendimentos de agricultura urbana já empregam pelo menos 200 milhões de pessoas e respondem por cerca de 20% da produção mundial de alimentos, tendo um importante papel na segurança alimentar de países em desenvolvimento. Mesmo em países desenvolvidos a agricultura urbana é responsável por quase um quarto da produção de hortaliças e frutas.

Embora ainda restem dúvidas sobre a viabilidade econômica da produção agrícola em ambientes controlados, há uma série de vantagens potenciais que não podem ser ignoradas, a primeira das quais é a completa independência da produção em relação ao clima, de forma que noções como as de zoneamentos climáticos da produção agrícola deixam de fazer sentido. Em princípio é possível construir-se uma estrutura de cultivo controlado (fábrica de plantas, fazenda vertical etc.) em qualquer lugar, principalmente caso se utilize luz artificial, já que não se utiliza solo.

A independência do clima significa que não há necessidade de períodos ociosos - a estrutura pode produzir ao longo de todo o ano. A qualidade do alimento produzido nestas estruturas é muito alta em todos os aspectos, fitossanitários, sanitários e mesmo nutricionais. O uso de práticas de cultivo sem solo, como a hidroponia, garante que a composição química dos alimentos seja completa, havendo ainda a possibilidade de se manipular as concentrações de nutrientes através da solução hidropônica. Além disso, a eficiência no uso de nutrientes e água é muito maior do que em sistemas de cultivo convencionais, permitindo produtividades mais elevadas.

Uma grande preocupação no mundo hoje quanto à qualidade de hortaliças e frutas é a presença de resíduos de pesticidas. O plantio em ambiente controlado virtualmente elimina a necessidade de aplicação de agrotóxicos uma vez que os cultivos se encontram fisicamente isolados do exterior. A proteção física e a ausência de influências externas não controladas fazem com que produtos perecíveis como hortaliças tenham uma vida de prateleira mais longa. O fato de o local ideal para a produção controlada ser o ambiente urbano reduz a necessidade de transporte e as perdas associadas ao deslocamento de produtos agrícolas.

O setor de produção de hortaliças no Brasil abastece majoritariamente o mercado interno, cujo consumo médio é baixo (IBGE, 2010). Novas tecnologias com potencial disruptivo, como a agricultura urbana intensiva em ambiente controlado, tem o potencial de abastecer as classes média e alta com produtos de alta qualidade, hortaliças que se encaixam na classificação de CGG (clean, green and gourmet) e poderia mesmo aproveitar o mercado de exportação.

Já existem empreendimentos de agricultura indoors em várias partes do mundo, inclusive em escala comercial, mas são quase nulos os exemplos e as descrições detalhadas de produção em ambiente controlado em países de clima tropical. As iniciativas no Brasil ainda são modestas e pouco adaptadas às condições locais. Na verdade, ainda há necessidade de se desenvolver e aprimorar o sistema de produção de alimentos, principalmente hortaliças, em cultivo controlado levando em consideração especificidades ambientais, técnicas e biológicas.

Questões importantes permanecem em aberto, tais como o uso de iluminação artificial, o tipo mais adequado de estrutura externa, os cultivos mais apropriados em termos agronômicos e mercadológicos, o melhor sistema de cultivo sem solo, resposta das plantas ao CO2, temperaturas ótimas de cultivo. Também há pouca informação sobre protocolos de gestão de acesso ao ambiente de cultivo indoors visando eliminar a entrada de patógenos, pragas e outros organismos indesejáveis.

A Embrapa tem realizado pesquisas e desenvolvido conhecimento e tecnologias no cultivo de hortaliças em ambiente protegido desde a década de 90 do século passado. Mais recentemente, a equipe de pesquisa em ambiente protegido da Embrapa intensificou as pesquisas em sistemas de produção sem solo, testando práticas, espécies, variedades, composição de soluções nutritivas e formas de aplicação, além de diferentes substratos e meios de cultivo. Embora o cultivo protegido tenha importantes diferenças em relação ao cultivo controlado, ambos são suficientemente próximos para permitir a transferência e o uso de pelo menos parte do conhecimento até hoje produzido.

A empresa 100% Livre já está cultivando e comercializando hortaliças a partir dos resultados gerados dentro da parceria de pesquisa com a Embrapa. Além da 100% Livre, a cidade de São Paulo já conta com pelo menos mais duas fazendas verticais: a Pink Farms e a Fazenda Cubo. Outras cidades brasileiras em breve também contarão com fazendas verticais. A pesquisa em agricultura em ambiente controlado feita pela Embrapa e algumas outras instituições deverá facilitar a expansão do cultivo vertical, chamar a atenção do público para os sistemas de produção sem solo e aumentar o consumo de hortaliças frescas, nutritivas e seguras pela população urbana no Brasil.


sábado, 28 de agosto de 2021

Hortaliças hidropônicas são menos naturais que as outras?

 


Algumas pessoas me fizeram recentemente essa pergunta e inicialmente não entendi bem a lógica por trás. Por que uma hortaliça hidropônica seria mais "artificial" que hortaliças produzidas em outros sistemas de produção? O que significa o termo "artificial", para começar? Segundo o dicionário, artificial é qualquer coisa "produzida pela mão do homem, não pela natureza". Ora, nessa definição acredito que entraria qualquer produto agrícola, qualquer hortaliça resultante da prática da agricultura, independente do sistema de produção utilizado. Só não se classificaria aí produtos resultado de coleta do que é produzido espontaneamente na natureza, mas desde há pelo 12 mil anos, quando a agricultura surgiu na Revolução Neolítica, a maior parte da humanidade deixou o estilo de vida caçador-coletor.

Bem, já que qualquer hortaliça cultivada pela mão do homem seria igualmente artificial, permanece a pergunta de por que as hortaliças hidropônicas seriam mais artificiais. Será por que são cultivadas sem solo? Isso significaria que as espécies de plantas pioneiras que colonizam rochas e outros materiais minerais são também artificiais. Vale dizer que os solos propriamente ditos se formam a partir da ação dos organismos sobre as rochas. A rocha decomposta só passa a ser realmente solo a partir da incorporação da matéria orgânica dos organismos mortos sobre ela. Isso não quer dizer que as plantas que ali cresciam antes não fossem naturais, ou quer?  

Plantas epífitas, como as orquídeas e as bromélias, crescem sobre outras plantas e não sobre solo, seu substrato de sustentação são os galhos e troncos, compostos de celulose, hemicelulose e lignina, principalmente. Hortaliças cultivadas sobre substratos orgânicos, como fibra de coco e turfa, são também consideradas hidropônicas. Esses substratos orgânicos são compostos principalmente por celulose, hemiceluloses e lignina - então porque seriam mais artificiais do que as plantas epífitas?

Há aqueles que imputam a artificialidade dos cultivos hidropônicos ao uso de soluções nutritivas elaboradas usando-se fertilizantes minerais. Os fertilizantes são produtos que levam às plantas os nutrientes minerais essenciais para o crescimento e a produção. A maior parte destes fertilizantes provem de minérios que recebem algum tipo de tratamento para tornar os nutrientes mais disponíveis às plantas. Os fertilizantes em geral são sais, como o sulfato de potássio, o qual contém dois nutrientes essenciais, o enxofre e o potássio. A única diferença entre os fertilizantes convencionais e os hidropônicos é que os hidropônicos são mais puros e mais solúveis. Como os fertilizantes usados na hidroponia e os utilizados na agricultura convencional que alimenta a maior parte da população mundial são os mesmos, não há como defender a tese de que a hortaliça hidropônica seja mais ou menos artificial do que a hortaliça da agricultura convencional.

Naturalmente há a comparação com os produtos agrícolas produzidos em sistemas de produção ditos orgânicos ou biológicos, os quais utilizam fontes orgânicas de nutrientes para as plantas. Em 2015 visitei na Coreia do Sul uma estufa de produção de pimentões que o pesquisador que me guiava chamou de orgânica. Fiquei confuso quando vi vários bags de fertilizantes hidropônicos minerais e perguntei ao meu anfitrião por que ele havia me dito que aquela produção era orgânica se estavam usando fertilizantes hidropônicos convencionais e achei sua resposta de um pragmatismo genial: "o nutriente que a planta absorve está na mesma forma química, independente se a fonte era mineral ou orgânica, a produção orgânica para nós é a que não usa agrotóxicos." 

E o velho agrônomo estava corretíssimo, como sabe qualquer um que tenha estudado a fisiologia da nutrição de plantas. Para que as plantas possam absorver os nutrientes presentes na matéria orgânica, esta deve ser antes mineralizada. A matéria orgânica, claro, tem outras funções importantíssimas no solo, como a de sustentar a microbiota diversa  e a manutenção da estrutura do solo, mas isso ainda não sustenta a tese de que o uso de fontes orgânicas de nutrientes torne uma hortaliça hidropônica mais ou menos artificial que uma hortaliça orgânica.

 Por fim, há a questão da qualidade nutricional das hortaliças hidropônicas. Li recentemente no livro Technically Food, da jornalista Larissa Zimberoff, argumentos a favor da maior qualidade nutricional de hortaliças orgânicas porque estas conteriam maiores concentrações de nutrientes como ácido salicílico, fenóis e polifenóis. Estes compostos têm um papel antioxidante importante tanto nas plantas quanto nos humanos que as consomem. Realmente não acho improvável que as hortaliças orgânicas tenham teores maiores desses nutrientes do que as hortaliças hidropônicas. 

Esses nutrientes, assim como outros com papel de defesa nas plantas, são chamados de metabólitos secundários e estão geralmente presentes em maiores concentrações em plantas expostas a fatores ambientais estressantes dos quais as plantas precisam se defender. Como as hortaliças hidropônicas são invariavelmente cultivadas em estufas, fisicamente protegidas de pragas e patógenos, com suprimento adequado de água e nutrientes, ou seja, como elas estão naturalmente protegidas, não surpreende que tenham menores concentrações de compostos de defesa. Por outro lado, as hortaliças hidropônicas são nutridas usando-se soluções nutritivas contendo todos os nutrientes essenciais às plantas e nas concentrações requeridas por elas. Nutrientes como ferro (Fe) e zinco (Zn), cuja deficiência, conhecida como fome oculta, afeta milhões de pessoas no mundo. A adubação de hortaliças em campo, seja convencional ou orgânica, dificilmente será tão completa quanto a adubação feita nas hortaliças hidropônicas. É uma pena que Zimberoff não tenha comentado isso em seu livro.

A dicotomia produto hidropônico versus produto orgânico não tem nenhuma utilidade e, como geralmente ocorre nesse tipo de comparação, tem muito mais de ideologia do que de ciência. Não existe, na verdade, uma batalha para determinar qual será a "agricultura do futuro". A agricultura do futuro, como a de hoje, deverá ser diversa, focada em sustentabilidade e qualidade nutricional.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Por que os agricultores usam agrotóxicos?

Nossa época gosta de julgar, de apontar o dedo e classificar de forma taxativa: isso é bom, aquilo é mau. Como se não houvesse meios-termos. Nem preciso dizer o quanto essa atitude contribuiu para o estado atual das disputas ideológicas - não há possibilidade de diálogo porque cada "lado" considera o outro a representação do mau. A isso se chama maniqueísmo. Julgamentos maniqueístas têm sido feitos sem escrúpulo em relação ao que se convencionou denominar de "agricultores convencionais". 

Esses agricultores são acusados de "envenenar a mesa do brasileiro", de colocarem o lucro acima de qualquer coisa, de agirem inescrupulosamente contra a saúde e o meio-ambiente. O que há de verdade nisso? Pergunto-me se os acusadores já pararam seriamente para refletir sobre o que leva um agricultor a usar agrotóxicos em sua lavoura. Gostaria de analisar cuidadosamente algumas dessas acusações e tentar elevar um pouco o diálogo, fugir do maniqueísmo dos bordões ideológicos que matam a reflexão no berço, impedem o pensar sem preconceitos e pré-concepções. Focarei a produção de hortaliças, grupo de culturas com que trabalho há mais de uma década e um dos alvos preferidos dos juízes da moral e dos bons costumes.

Antes de tudo, gostaria de deixar claro sobre o que estou falando quando me refiro a agrotóxicos, usando a definição do livro Agricultura: Fatos e Mitos. Para os autores do livro, agrotóxicos são "produtos químicos utilizados no controle de pragas agrícolas". Pois bem, isso talvez ainda não seja suficiente. Afinal, o que são pragas agrícolas? De maneira geral, são organismos que, de alguma forma, impactam negativamente a produtividade ou a qualidade dos cultivos. Refere-se esse termo quase invariavelmente a plantas espontâneas, artrópodes (insetos, ácaros) e microrganismos que, para sobreviver, competem com as plantas cultivadas por recursos ou usam estas plantas como alimento. 

Ora, o agricultor é um trabalhador que sobrevive às custas do que produz - se é um produtor de tomates, ele depende da produção e da venda de tomates para seu sustento. "Jogou" seu dinheiro no solo na forma de sementes, adubos, irrigação, tratos culturais e espera um retorno daí a alguns meses. O plantio é seu investimento e a colheita o retorno. Qualquer investidor ao ver seu investimento ameaçado tomará as medidas necessárias para protegê-lo. Ao detectar uma lagarta se alimentando dos frutos do tomateiro, é natural que o agricultor veja nisso uma ameaça a seu sustento e tome as medidas necessárias para salvaguardá-lo - ou não é? Então deixemos esse pensamento de que o agricultor é um agente do mal cuja intenção é "envenenar a mesa do brasileiro". Essa frase é manipulação descarada.

Os agrotóxicos não são produzidos pelos agricultores nem distribuídos gratuitamente pelas empresas que os produzem. São produtos caros, representam uma porcentagem considerável do custo de produção para o agricultor. O produtor rural não "gosta" de aplicar agrotóxicos, ele se sente obrigado a isso ao detectar uma ameaça ao seu investimento. Vejam bem, não estou dizendo que a aplicação de agrotóxicos seja a única ação possível, mas para muitos produtores, é a única que conhecem. Ao saber-se doente, uma pessoa normal não toma remédio porque "gosta", mas porque precisa. A afirmação de que o produtor usa agrotóxicos porque põe o lucro acima de qualquer outra consideração seria análogo a se dizer que um dono de casa põe sua propriedade acima da liberdade ao chamar a polícia quando vê um ladrão arrombando sua porta.

Não sou um entusiasta dos agrotóxicos, preferiria que não fossem necessários. O uso excessivo ou inadequado existe. Minha opinião é de que o mal-uso se deve muito mais ao despreparo e à desinformação. O produtor rural, principalmente o pequeno, carece de assistência técnica de qualidade, principalmente porque em fins da década de 80 do século passado resolveu-se transferir a responsabilidade da assistência técnica e extensão rural públicas da União para os Estados. A maior parte do impacto ambiental negativo da agricultura se deve a isso, mas nunca vi Bela Gil clamando por uma extensão rural de qualidade para os produtores de hortaliças.  

Apesar de o Brasil ser considerado uma superpotência agrícola e de a agricultura ter tido nos últimos anos uma importância tremenda em nossa balança comercial, as discussões públicas sobre a agricultura no país são quase invariavelmente superficiais e preconceituosas. A agricultura, por aqui, quando se “discute” é de forma em geral maniqueísta, de acordo com a preferência ideológica de quem discute, e geralmente quem tem audiência suficiente para ser ouvido tem agenda ideológica mais do que enviesada. Ou a agricultura é vilã ou é a salvadora da pátria. Discussões de pequena profundidade e destinada aos horários de menor audiência dos meios de comunicação. Damos importância a outras coisas.

Há um temeroso divórcio entre a população urbana e a prática agrícola, como se uma não influenciasse a outra. Não discutimos a sério a questão do uso excessivo ou inadequado de agrotóxicos, por exemplo, e suas causas. Nunca questionamos a pressão exercida pelas exigências do mercado urbano sobre as decisões tomadas pelos agricultores. Alguém está se perguntando o quanto de agrotóxicos é necessário para se conseguir a fruta ou hortaliça esteticamente perfeita que se procura nas prateleiras de supermercados?

quinta-feira, 4 de março de 2021

Fertilizante não é agrotóxico


Em 2015 estive na Coreia do Sul realizando atividades de um projeto de parceria que ao tempo eu coordenava. Visitei diversas estufas de produção de hortaliças e lembro-me que pedi ao pesquisador que me acompanhava para visitar uma estufa de produção orgânica. Fomos a uma enorme estufa de produção de pimentões nos arredores de Busan. Minha primeira surpresa foi que a produção era hidropônica. No Brasil não há como certificar uma produção hidropônica como orgânica, a legislação não permite. A surpresa maior veio quando verifiquei que toda a nutrição das plantas era feita com adubos químicos.

A resposta do colega coreano quando lhe perguntei como classificavam aquela produção como orgânica se usavam adubos químicos foi, para mim, uma aula de pragmatismo: "a forma com que a planta absorve o nutriente é a mesma, independente se o adubo é orgânico ou químico, isso não é o importante. O importante é que não usamos agrotóxicos para combater pragas e doenças, só controle biológico." Claro. Esse tipo de produção, no Brasil, seria chamada de Produção Integrada, um sistema de produção que agrupa o que se chama de Boas Práticas Agrícolas. Esse, no entanto, não é o foco dessa reflexão. O que quero sublinhar é o fato, claro para o colega pesquisador coreano, é que fertilizantes, adubos, químicos ou não, não são agrotóxicos.

Todas as espécies vegetais cultivadas precisam pelo menos de 16 nutrientes. Três destes nutrientes, hidrogênio (H), oxigênio (O) e carbono (C) são fornecidos pela água ou pelo ar e são classificados como elementos não minerais essenciais ou elementos estruturais. Os outros treze nutrientes, conhecidos como nutrientes minerais, devem ser fornecidos através de adubos ou fertilizantes e estar na forma de íons (cátions ou ânions) no meio onde crescem as raízes para que as plantas possam absorvê-los, juntamente com a água. Os nutrientes minerais são divididos em macronutrientes e micronutrientes.


Macronutrientes são elementos químicos cuja concentração na matéria seca vegetal é maior que 0,1%. São considerados macronutrientes os elementos nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), cálcio (Ca), magnésio (Mg) e enxofre (S). Os micronutrientes são os elementos nutrientes cuja concentração na matéria seca da planta é menor que 0,1%. Atualmente reconhecem-se 7 micronutrientes: ferro (Fe), manganês (Mn), zinco (Zn), cobre (Cu), boro (B), molibdênio (Mo) e cloro (Cl). Para alguns fisiologistas o elemento níquel (Ni) é essencial e classificado como micronutriente. Os micronutrientes são elementos tão essenciais para as plantas quanto os macronutrientes, só que requeridos em quantidades muito pequenas, daí a denominação micronutriente. 


Além dos elementos químicos considerados como nutrientes essenciais, há alguns elementos conhecidos como benéficos. Estes são elementos não essenciais os quais estimulam o crescimento vegetal. Também são classificados como benéficos os elementos essenciais para um número limitado de espécies. Essa classificação geralmente se refere aos elementos silício (Si), sódio (Na) e cobalto (Co).

Um adubo ou fertilizante é simplesmente o meio de transporte de um nutriente. O adubo leva para a planta o nutriente que ela precisa Os adubos geralmente são sais (compostos formados por um cátion e um ânion) de altas pureza e solubilidade. Um adubo pode conter um ou mais nutrientes e o mesmo nutriente pode estar presente em diferentes adubos. 

O nitrogênio (N), por exemplo, é um nutriente essencial para as plantas. Quando um produtor precisa fornecer o nitrogênio a seu cultivo, utiliza um adubo que contenha o nitrogênio, por exemplo o MAP (monoamônio fosfato ou fosfato monoamônico), cuja fórmula química é NH4H2PO4. É possível ver na fórmula química do MAP que além do nitrogênio, ele contém fósforo (P), o qual também é um nutriente. Isso quer dizer que o adubo MAP contém, ou transporta, os nutrientes nitrogênio e fósforo. 

O termo agrotóxico se refere a "produtos químicos utilizados no controle de pragas agrícolas", segundo a definição do livro Agricultura: Fatos e Mitos. Esses produtos são conhecidos internacionalmente como pesticides, pesticidas ou praguicidas. No Brasil, tem se preferido o uso do termo "defensivo agrícola" ou, mais exato ainda, produto fitossanitário. Pragas agrícolas são organismos cuja presença no sistema de produção podem comprometer a produção ou qualidade do cultivo; geralmente são artrópodes e microrganismos causadores de doenças. Não abordarei neste texto a prática do uso de pesticidas.

Espero que fique clara a diferença entre fertilizantes, usados para fornecer nutrientes essenciais às plantas, e agrotóxicos, usados para o controle de pragas. São papeis completamente diferentes. Uma planta bem adubada, adequadamente nutrida, será mais resistente ao ataque de pragas agrícolas, demandando menor uso de agrotóxicos. O uso inadequado, seja excessivo seja insuficiente, de adubos pode levar a desequilíbrios na planta e no ambiente. Isto vale para adubos orgânicos ou inorgânicos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

As fazendas verticais são a Utopia das Ciências Agrárias

 


O que faz o homem sobre a Terra? Luta para neutralizar o acaso. Eis a principal necessidade humana: driblar o imprevisível...”     Ferreira Gullar, poeta brasileiro.

A evolução da Agricultura, desde sua invenção no Neolítico, tem sido uma história de luta contra o acaso. A Utopia das Ciências Agrárias poderia ser descrita como o ambiente perfeito para o cultivo, onde todas as variáveis relevantes tivessem valores ideais para a produção vegetal. Poderia resumir a História das Ciências Agrárias como uma busca por essa Utopia. As modificações do ambiente físico onde se realizará o cultivo são modificações cujo objetivo é criar as melhores condições para o crescimento e o desenvolvimento vegetal para que se possa obter o máximo de produção. Esse conceito é chave: a agricultura pretende otimizar o crescimento e o desenvolvimento vegetal na medida em que essa otimização se traduza em maximização da produção de interesse econômico.

Normalmente, o ambiente se desvia desse ótimo: o conteúdo de nutrientes do solo é menor do que o necessário para uma colheita satisfatória; as chuvas são irregulares e a quantidade de água insuficiente; a densidade da camada arável é muito alta, a drenagem do subsolo é deficiente; há uma abundância de organismos herbívoros e de microrganismos causadores de doença; as plantas espontâneas crescem mais rápido e são mais eficientes na aquisição de água e nutrientes do que as espécies cultivadas; venta muito; o calor é excessivo; as sementes disponíveis são escassas e de baixa qualidade; o frio noturno é intenso...Enfim, há muitas "variantes trágicas" com o potencial de comprometer a produção desejada.

Estima-se que, mesmo em países de agricultura desenvolvida, a produção agrícola está limitada a 25% de seu potencial em razão de condições ambientais estressantes para as espécies cultivadas. As produtividades médias da maior parte das principais espécies de hortaliças cultivadas poderia ser 50% maior caso as mesmas não sofressem com condições ambientais estressantes. Isso não é pouco.  Só esse fato já explica os impressionantes ganhos de produtividade das hortaliças cultivadas em estufas e principalmente em ambiente controlado. Esse mesmo fato demonstra bem o peso que a dependência nas condições climáticas tem na produção de alimentos. Cada metro quadrado de terra poderia produzir 50% a mais de alimentos se não fosse o acaso, a imprevisibilidade. 

Imaginemos quanto esforço as Ciências Agrárias dedicaram ao desenvolvimento de variedades cultivadas menos sensíveis a fatores ambientais desfavoráveis: variedades resistentes ao frio, ao calor, à seca, ao alagamento, à acidez do solo, à salinidade... Apesar de a agricultura ser uma luta contra o acaso, do desenvolvimento de técnicas e práticas de manejo do ecossistema agrícola, esse manejo é inevitavelmente incompleto. Em razão disso, todo esse esforço gera resultados mais ou menos efêmeros, mais ou menos satisfatórios. Há agora condições tecnológicas de se fazer o inverso - criar condições ambientais ótimas para que as espécies de plantas cultivadas possam expressar todo seu potencial produtivo.

Na produção de hortaliças, a adoção das práticas de cultivo protegido foi um passo à frente na tendência de controlar as variáveis ambientais e se proteger do acaso visando a otimização e maximização da produção agrícola, mas não tem sido uma solução de fácil manejo em regiões tropicais, principalmente no que diz respeito ao controle da temperatura. O cultivo em ambiente controlado representa uma declaração de independência. É o fim da dependência do clima, do tempo, das pragas, das doenças, do solo infértil. É uma visão realizável de um ideal utópico. Na verdade, já é, em muitos lugares, uma visão realizada. Ainda assim, estamos apenas no começo de uma nova revolução agrícola. Passamos pela revolução neolítica, pela revolução industrial, pela revolução verde. Estamos no início da revolução vertical.

Esqueçamos a alta tecnologia, o brilho estranho das lâmpadas LED, os vários andares de cultivo. O que realmente caracteriza uma fazenda vertical que a torna diferente do cultivo em estufa ou do cultivo tradicional em campo aberto? O controle total de todas as variáveis ambientais que definem a produção de uma planta. A eliminação completa da ação do acaso e do imprevisto na produção vegetal. Dentro de uma fazenda vertical não há mais a preocupação com secas, com enchentes, com geadas, com veranicos. A fazenda vertical produzirá a mesma coisa chova ou faça sol. Literalmente, o clima lá fora deixa de importar.